Clínicas de Diálise e pacientes do Brasil inteiro se mobilizam em defesa do tratamento renal

Estimativa da Sociedade Brasileira de Nefrologia (SBN) aponta que existem no Brasil aproximadamente 122 mil pacientes renais crônicos, que dependem do tratamento com terapia renal substitutiva para filtrar artificialmente o sangue. Entretanto, uma crise que se arrasta há anos pode provocar um colapso no atendimento. “Os pacientes com funcionamento renal comprometido dependem única e exclusivamente das sessões de diálise para sobreviverem”, afirma o presidente da Associação Brasileira dos Centros de Diálise e Transplante (ABCDT), Marcos Vieira.

Entre os problemas estão a falta de financiamento adequado para a diálise, a defasagem de 30% no custo da sessão de hemodiálise, atraso no repasse do pagamento da Terapia Renal Substitutiva (TRS) pelas Secretarias de Saúde estaduais e municipais aos prestadores de serviço ao Sistema Único de Saúde (SUS). Muitos gestores chegam a atrasar até mais de 30 dias para fazer o repasse após a liberação do recurso pelo Ministério da Saúde. Pela legislação o pagamento deveria ser feito em cinco dias úteis.

Segundo Marcos, nos últimos anos, houve aumento de 71% no número de pacientes dependentes de diálise, enquanto a quantidade de clínicas cresceu apenas 15%.

Para chamar a atenção da população geral para essa situação, a Associação Brasileira dos Centros de Diálise e Transplante (ABCDT) promoverá um Dia D da Diálise como parte da campanha de valorização “Vidas Importam: a diálise não pode parar”. A ação acontecerá no dia 29 de agosto e será realizada simultaneamente em diversas cidades brasileiras.

Para o Rio de Janeiro, está programada uma mobilização na Cinelândia a partir das 11 horas. O evento contará com material explicativo sobre os tratamentos, aferição de pressão arterial, teste glicêmico e simulação de hemodiálise. Ainda no Rio de Janeiro, a Associação dos Renais e Transplantados do Estado do Rio de Janeiro fará uma Audiência Pública na Assembleia Legislativa do Estado.

No Rio Grande do Sul, representantes do setor participarão de audiência pública na Assembleia Legislativa de Porto Alegre para discutir diagnósticos e tratamentos das doenças renais e as dificuldades enfrentadas pelo setor. Em Santa Catarina, a maior movimentação vai ocorrer na cidade de Joinville, Blumenau, Itajaí e na capital Florianópolis. Médicos e pacientes vão se reunir em locais de grande circulação como a praça Nereu Ramos, em Joinville, para mostrar a importância do tratamento para a qualidade de vida do doente renal crônico.

Na cidade de São Mateus (ES), serão distribuídos adesivos, balões e copos de água às margens da rodovia. Um trio elétrico também participará da movimentação, que conta com o apoio da Polícia Militar. Alunos da faculdade Vale do Cricaré, do curso de enfermagem, irão aferir pressão e medir a glicemia no local.

Em São José dos Campos (SP), a campanha será realizada em frente ao Centro de Operações Integradas, com aferição de sinais vitais e glicemia capilar, além de orientação à população.

Já no Distrito Federal, pacientes, familiares, médicos e proprietários de clínicas da Capital Federal e de regiões próximas se reunirão na Praça do Relógio, na Região Administrativa de Taguatinga, a 24 km do Congresso Nacional. O público que passa pelo local receberá orientações sobre doenças renais e poderá realizar testes glicêmicos e aferir pressão arterial.

Diálise Peritoneal

A ABCDT alerta que a situação para os pacientes de diálise peritoneal é ainda mais grave. Diferente da hemodiálise, que filtra o sangue através de uma máquina e um dialisador para remover as toxinas do organismo, a diálise peritoneal realiza o tratamento dentro do corpo do paciente, por meio da colocação de um catéter flexível no abdômen para a infusão de líquido de diálise para filtrar o sangue do paciente.

Gilson Nascimento da Silva, Diretor Geral da Aliança Brasileira de Apoio à Saúde Renal (Abrasrenal), entidade carioca com mais de três mil associados, afirma que o tratamento é mal remunerado e a situação das clínicas que oferecem os produtos e medicamentos é crítica. “São quase três anos sem aumento em um contexto em que os insumos são dolarizados e o frete cresce a cada dia. Precisamos mostrar que a diálise peritoneal deve ser a primeira escolha para os renais crônicos”, explica.

Para Gilson, se o Estado investisse na remuneração das clínicas de diálise, economizaria recursos com a desinternação de pacientes. “Temos atualmente só no Rio de Janeiro mais de 300 pacientes internados ocupando vagas em hospitais, enquanto aguardam a realização da primeira diálise. O tempo médio de espera chega a ser superior a dois meses”, lamenta.

Com relação ao caos que os hospitais públicos enfrentam com a falta de leitos, o presidente da Abrasrenal levanta a seguinte questão: “Será que o estado já refletiu sobre quanto custa um paciente renal, que poderia realizar o tratamento em casa, ocupando o leito de pacientes mais graves?”

De acordo com pesquisa da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), a diálise peritoneal pode representar uma economia de 5% aos cofres públicos e gerar qualidade de vida ao paciente. Entretanto, segundo a ABCDT, a terapia ainda é subutilizada pelo sistema de saúde. A entidade calcula que atualmente no Brasil pouco mais de nove mil pacientes realizam esse tipo de tratamento.

Manoel Dias Costa, de 85 anos e morador de Cidade Ocidental (GO), sentiu sua vida ser transformada com a terapia renal substitutiva há dois anos. Após alguns anos de acompanhamento hospitalar, ele, que é diabético e hipertenso, passou a ter dificuldades em relação à estabilização da pressão arterial e da glicemia. A filha Ednelza do Nascimento Costa, conta que o pai passou por consultas com nefrologista e cardiologista e a indicação foi para diálise peritoneal.

“Os rins do meu pai estavam trabalhando apenas com 10% da capacidade. A clínica que fizemos exame nos auxiliou com a burocracia e conseguimos o tratamento pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Ele, que estava muito fraco e debilitado, saiu da primeira sessão caminhando”, comemora. Ednelza conta ainda que na fase inicial de tratamento em casa, por meio de diálise peritoneal o ciclo chegava a durar nove horas. “Após seis meses meu pai melhorou muito! Nunca mais desidratou, não precisa mais de bolsas de sangue… Nossa família foi treinada para operar o aparelho e constantemente passamos por cursos de reciclagem”, explica.