O Corretor de Seguros e o Canibal

Por Renato Cunha Bueno*

A Folha de S. Paulo publicou um artigo (domingo, 22/07/18) intitulado Moby Dick, escrito por Marcos Lisboa *, presidente do Insper, ex-presidente do IRB e da Itaú Seguros, e de quem sou fã incondicional. Num contexto diferente do meu objetivo neste texto, ele utiliza trechos do livro Moby Dick para ilustrar seu raciocínio, que vou me apropriar parcial e literalmente para suportar minha opinião.

Tenho visto grandes polêmicas a respeito das plataformas eletrônicas de venda de seguros, em que a maior parte das teses acredita que os meios digitais vão destruir os corretores de seguros que se dedicam ao mercado de produtos massificados e de automóveis.

Tudo bem que é difícil disputar com quem dispõe de muito capital, como bancos e plataformas eletrônicas, onde há investimento abundante e o lucro pode vir daqui a anos com a consolidação destas operações.

Porém, eu discordo que a tecnologia irá destruir os corretores de seguros, por várias razões, entre as quais destaco:

Nos países em que as plataformas dominam o mercado, como os Estados Unidos, o seguro de automóveis é obrigatório com limites mínimos pré-definidos, o que facilita muito a comparação de termos. Nos países suscetíveis a catástrofes, como terremotos tufões, furacões, tsunamis e outros, os seguros residenciais e patrimoniais não são necessariamente obrigatórios, mas praticamente todo mundo contrata em bases também fáceis de comparar.

Já no Brasil isso fica mais difícil pela variedade e diversidade de produtos com personalidade, portanto difíceis de comparar. Aí é que o bom corretor tem a oportunidade de mostrar a que veio: decifrando, explicando, aconselhando e navegando neste emaranhado de preços e condições disponíveis. Outro momento sensível é a hora do sinistro, pois tratar com centrais de telemarketing nunca é fácil nem agradável. É só lembrar das conversas com o cartão de crédito e fornecedores de telefonia, internet etc.

Voltando ao artigo de Marcos Lisboa, ele cita a obra prima Moby Dick, de Herman Melville, recheada de personagens notáveis e conturbadas, em meio a passagens surpreendentes. No capitulo três, Ishmael fica assustado ao saber que dividiria a cama com um jovem canibal na hospedaria lotada. Após parágrafos angustiados, a sua empatia recheada de bom senso leva-o a concluir: “Que confusão é essa que estou fazendo? Ele tem a mesma razão para me temer que tenho para ter medo dele. Melhor dormir com um canibal sóbrio do que com um cristão bêbado”.

Trazendo para o nosso mercado de seguros, a solução é trabalhar bem e não dar moleza aos canibais!

*Renato Cunha Bueno é sócio-diretor da ARX Re Corretora de Resseguros e coordenador da Comissão Grandes Riscos e Resseguros do Sincor-SP.